Relato de um assalto: entre o medo e a revolta

Terça feira 26 de agosto de 2014.

Era um dia comum, o ensaio havia acabado mais cedo, consegui pegar um ônibus que pararia próximo a minha casa e eu teria que caminhar uma parte até chegar definitivamente no meu lar. Exatamente às 21:47 desci do ônibus, e o primeiro pensamento que me veio a mente foi, nós mulheres temos que evitar fazer tantas coisas simples como caminhar até em casa, normalmente faço esse trajeto em diferentes horários. Sempre muito atenta a tudo que acontece e a noite com a atenção redobrada, é um local um pouco deserto, mas alguns metros depois daquele pensamento, estava atravessando a rua e então um carro veio me fechando e parando, naquele momento sabia que algo aconteceria, eram dois homens brancos, aparência de classe média alta, armados, o passageiro já com a arma apontada para mim disse em um tom ameaçador é um assalto, passa a bolsa, eu que estava segurando uma bolsa de comidas e uma mochila, entreguei a de comidas que foi a indicada para passar, dentro dela estava também minha carteira que acabará de retirar da mochila para pagar passagem, um com a arma apontada a minha face, o outro olhando se havia algo de valor na carteira ou na bolsa, enquanto isso acontecia eu ali, mulher 23 anos, negra, artista, me deparei cara a cara com meu maior medo, ser estuprada, pouco me importavam se levassem todos meus bens, pouco me importava se atirassem em mim, mas senti que eles poderiam me levar, me violentar sexualmente, fisicamente, me fez então perceber naquele momento o que seria o medo que me assola, quando viram que na carteira não havia grande quantia de dinheiro ficaram irritados, um deles me lançou um olhar estarrecedor e meu medo, fez cada fibra muscular então sentir a real sensação do pavor, por fim eles encontraram dentro da bolsa um celular (iphone) se sentiram contentes partiram, deixando para traz, minha bolsa jogada no chão, e o medo que me acompanhou por todo restante do caminho até em casa, a cada carro, moto, ou qualquer coisa que passasse um novo temor, se eles soubesse que aquele telefone realmente precisava ser trocado e voltassem para se vingar da pior maneira que me passava a mente? Me faltava forças para ir mais rápido, enfim em casa, me sentia em choque, não que me fosse a primeira vez que passasse por uma situação de assalto, ou algo do tipo, mas porquê não me saia do pensamento que caso algo que eu temesse acontecesse ali naquele momento, talvez eu fosse ser declarada culpada por caminhar até em casa, culpada por ser mulher, absurdos que são defendidos a ferro e fogo por grande parte da população. Só consigo neste momento pensar em cada mulher que passou e passa por situações como essa, que são violentadas, que infelizmente não dão a mesma sorte que eu de sair  “ilesas”, choro enfim… lágrimas essas que são de raiva de viver em um mundo onde nós mulheres temos que passar o tempo todo tendo que ter cuidados excessivos, não por concordar com que é imposto, mas para sobreviver, muitas vezes temos que mudar hábitos simples como  poder caminhar até em casa, é absurdo cogitar ter que ceder a isso, mas ainda mais absurdo é pensar esse mundo que dilacera mulheres a todo momento.

Por fim, agosto de 2014, será um mês para guardar como lembranças das tantas pancadas que a vida me deu,  já me sinto um saco de pancadas, mas farei o que faço de melhor, juntarei todos meus cacos e me construirei novamente, afinal de contas viver é esse eterno ciclo.

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