Sobre as blogueiras pretas

 

Antes de partir por um tempo eu decidi compartilhar com vocês algumas coisas que estão reverberando por aqui, a primeira delas é sobre um assunto que anda martelando na cabeça desde a viagem para o Rio de Janeiro para participar do evento Emergências, partamos do princípio.

Há algum tempo eu tenho me questionado sobre a representatividade das blogueiras em principal as negras e que fique explicito aqui que não estou falando do site Blogueiras Negras (que é para mim um dos melhores sites atualmente na internet), mas sim de todas as blogueiras que insistem em abrir canais para falar de cabelo e estilo, eu já me questionava bastante sobre esse tema e sobre como essas irmãs tem virado produto do sistema e que material elas estão fornecendo para quem as segue e utiliza das informações que elas fornecem para se orientar principalmente se tratando de estética, mas ao chegar no Rio ficou ainda mais efervescente as discussões pois percebi que não somente eu, mas muitas pessoas tem se atentado para esse ponto. Primeiramente vamos listar algumas perguntas para abordar  1: Que tipo de blogueiras tem surgido? 2: Que conteúdos elas abordam? 3: Que marcas estão se associando a elas? 4: Como ela divulga seu trabalho? 5: Qual é o trabalho real e de fato de uma blogueira? 6: Por que tantas blogueiras e qual seu papel na questão da apropriação cultural? Respondendo então aos meus questionamentos comecei a perceber a problematização da  coisa toda, tem surgido blogueiras somente falando de moda e de cabelo, elas abordam em seu conteúdo como deixar seu cacho perfeito (o que é algo que precisamos questionar, porque essa padronização do cacho perfeito é super prejudicial, pois caímos no padrão cabelo afro é bonito só se for neste ou aquele modelo, se for outro modelo, ahh você esta fora), percebi que dentre todas elas são rara as exceções de mulheres negras de pele escura e de cabelo crespo do tipo 4A a 4C, o que é outro problema, pois caímos novamente em um padrão, o referencial estético que passa a ser transmitido e aceitado é o da negra de pele clara e cachos definidos, e traços finos, porém neste sentido meu questionamento sobre o conteúdo que elas abordam me traz para um lugar ainda mais complexo, visto que só se fala de cabelo e das diversas maneiras de cuidar desses (o que é importante pois não tínhamos esse referencial à tempos atrás, não sabíamos nem que tipo de produtos usar e ainda estamos aprendendo coletivamente), mas se ficarmos nisso é maçante e fútil, visto que é preciso trazer para as irmãs e para os irmãos referenciais que promovam um pensamento, uma reflexão, um estudo e principalmente a palavra que as blogueiras amam usar empoderamento,  e este de maneira nenhuma não é só assumir seu cabelo black maravilhoso, mas é saber sua ancestralidade, ter referenciais históricos, saber como se defender do racismo nosso de cada dia e principalmente saber de fato com propriedade argumentar sobre tudo isso, e infelizmente não encontramos nada disso nesses blogs, encontramos apenas um montante extremo de futilidade, misturado fotos bem boladas, articulando frases pouco conexas e divulgação de marcas diversas, POW!!!!!! aqui é que mora o perigo, vamos falar das marcas diversas que vivem utilizando das blogueiras e mandando presentes e kits e elas divulgando, pois pelo que entendi no processo de ser um social media, você recebe presentes e em contrapartida divulga eles, porém é interessante pensarmos o que você esta divulgando? Uma marca qualquer te manda um produto e você o divulga, mas que tipo de fabricação tem esse produto, é uma marca que você acredita no produto? É um produto que passa naa sua fabricação com trabalho escravo? E eu me pergunto sempre por que você esta associando a sua imagem a este produto, só pelo status? É bom ganhar presentes, com toda certeza é sim, mas chegamos a um ponto onde a associação da imagem a produtos transformou diversas blogueiras em verdadeiros produtos do sistema,  como diria diversas manas de luta, elas agora são produtos da casa branca, com sua imagem associada a produtos que passam por trabalho escravo, que são a grande onda da moda do capitalismo, elas passam a vender a imagem do descolex, você só esta na moda e só é linda se esta utilizando tal produto de tal marca, tal estilo, em uma foto maneira e em tal pose, e aqui irmãs e irmãos voltamos então a estaca zero antes de termos referenciais de moda e estilo, pois para aquela irmã ou irmão que mora na comunidade e em regiões periféricas poder ter um nike maneiro do estilo tal da moda requer que este  faça sacrifícios extremos muitas vezes, pois  graças a sua falta de fornecimento de conteúdo que não trouxe formação e “empoderamento” de fato querida blogueira e querido blogueiro, as irmãs e os irmãos se perdem pro sistema e acabam em um outro nível de futilidade, onde agora passamos a comparar quem é mais descolex, afropunk, tombadora/tombador, lacradora/lacrador e esquecemos que somos parte engolida e massacrada, que nossos jovens estão morrendo muito mais, que nossas mulheres pretas morrem em um numero avassaladoramente maior, não conseguimos ainda burlar e tampouco transformar o sistema, pois o racismo esta gritando todos os dias na nossa cara preta. Então voltamos as questões expostas e passo a me indagar sobre como tais blogueiras influenciam na questão da apropriação cultural, pois observo por diversos momentos adereços e adornos que antes eram rejeitados pela sua origem cultural e ancestral negra, mas que conforme a utilização e divulgação passaram então a ser itens essenciais da moda, mas vale aqui lembrar que a utilização desses objetos por pessoas brancas que não tem nenhuma noção na significação que traz consigo, se da quase que da mesma maneira que divulgar produtos dos quais você não se importa em saber de onde vêm, um exemplo básico que podemos dar, são os turbantes, quantas pessoas brancas hoje utilizam do turbante por achar um acessório lindo em suas cabeças brancas, mas se for em uma cabeça de pessoa negra de pele escura, é um adorno perigoso e essa pessoa pode sofrer inclusive ataques não somente racistas, mas físicos e de preconceito com cunho religioso, pois a associação é imediata, eles querem utilizar dos objetos e da cultura, mas não querem saber a problematização que traz consigo, pois querem usufruir somente da parte estética boa, exposta pelas blogueiras como adorno da moda, não se atentam a também contar a importância ancestral de tal objeto, e sinceramente neste ponto, poderia estender a um texto ainda mais extenso e complexo só para falar de apropriação cultural, porém para exemplificar o que falamos sobre apropriação cultural cito um trecho do texto “Eu sou atlântica sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento” de Alex Ratts

 

“[…]. Uma das piores agressões que sofri neste nível foi por parte de um intelectual branco. Disse-me ele que era mais preto do que eu por ter escrito um trabalho sobre religião afro- brasileira, enquanto que eu não usava cabelo afro nem frequentava candomblé. […]. Os artistas, intelectuais e outros brancos, diante da crise do pensamento e da própria cultura do Ocidente, voltam-se para nós como se pudéssemos mais uma vez aguentar as suas frustrações históricas. É possível que agora, no terreno das idéias e das artes, continuemos a ser “os pés e as mãos” desta Sociedade Ocidental?
Acham eles que por frequentarem candomblé, fazerem músicas que falam de nossa alegria, sabedoria e outros estereótipos, podem também, subtrair a nossa identidade racial. Se um jovem loiro, burguês, intelectual brilhantíssimo, após alguns anos de estudo de uma das nossas manifestações culturais chegar à conclusão que é mais preto que eu, o que é que eu sou?”

 

 

E neste ponto, exatamente neste ponto, reforço o que havia dito anteriormente sobre como tais influências trazem uma formação deturpada e um falso empoderamento, pois passa-se a acreditar ser natural afirmações como a relatada acima, e essas não são nada naturais e nem devem ser tratada como tais, por isso tenho muito me questionado sobre qual o papel e qual a importância temos dado a essas blogueiras, como transformar o sistema e como utilizar das mídias sociais? Dentro desse meio social virtual o que estamos influenciando e mostrando para as nossas e os nossos, e que fique aqui explicito que também me coloco dentro do pacote, pois não somente por me questionar me isento do papel que exerço por ter seguidores e pessoas que estão sendo influenciadas por mim, porém só de ter tal percepção me sinto 1% fora da matrix, talvez nem seja tudo isso, mas me sinto em total obrigação de agir quanto a todos esses questionamentos e por isso escrevo hoje, talvez na tentativa de pensarmos coletivamente como podemos realizar pequenas transformações.

Que fique aqui explicito que penso que precisamos sim ter cada vez mais espaços e pessoas ocupando eles, mas que precisamos também cada dia mais estarmos consciente de como ocupamos e o que estamos fazendo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s